Entre as inúmeras receitas batizadas em homenagem a grandes personalidades da história, poucas carregam tanta tradição quanto aquelas inspiradas em Gioachino Rossini (1792 – 1868). Famoso por óperas como “O Barbeiro de Sevilha” e “Guilherme Tell”, o compositor italiano também era um apaixonado pela boa mesa. Após se aposentar precocemente da música, passou a dedicar boa parte de seu tempo à gastronomia, convivendo com grandes cozinheiros franceses e italianos. Sua paixão pela culinária foi tamanha que diversas preparações sofisticadas passaram a levar seu sobrenome, quase sempre associadas a ingredientes nobres, molhos ricos e técnicas refinadas, tais como o Canelone à Rossini, e o Tournedos Rossini, de longe o mais famoso.
O Canelone à Rossini nasceu dentro dessa tradição. Diferentemente da versão mais conhecida no Brasil, seu recheio original combina fígado de galinha, carne bovina macia – tradicionalmente vitelo –, cogumelos, vinho Marsala e queijo parmesão, formando uma pasta delicada, de sabor intenso, porém surpreendentemente equilibrado. A presença do fígado pode causar estranheza à primeira vista, mas, quando preparado corretamente, ele perde o sabor forte que muitos imaginam e confere uma cremosidade difícil de obter com outros ingredientes.
Com o passar das décadas, especialmente nas cantinas italianas de São Paulo, a receita foi sendo adaptada ao paladar brasileiro. O recheio tradicional acabou dando lugar à combinação de presunto e muçarela, muito mais popular entre os clientes e mais fácil de produzir em grande escala. Essa versão tornou-se tão difundida que hoje muitos brasileiros acreditam ser a receita original. Preparar o verdadeiro Canelone à Rossini é, portanto, redescobrir um clássico da gastronomia italiana que permaneceu preservado em poucas cozinhas.
Ingredientes para o Canelone à Rossini
Para a Massa:
- 500 g de massa fresca para lasanha ou canelone
Dica: a massa fresca facilita a montagem e mantém melhor a delicadeza do recheio. Caso utilize massa seca, cozinhe-a apenas até ficar al dente.
Para o Recheio:
- 300 g de patinho ou coxão mole em cubos pequenos
- 250 g de fígados de galinha limpos
- 150 g de cogumelos Paris picados
- 2 colheres (sopa) de manteiga
- 1 colher (sopa) de azeite
- 1 cebola média bem picada
- 2 dentes de alho picados
- 80 ml de vinho Marsala (ou, na falta dele, vinho branco seco de boa qualidade)
- 50 g de queijo parmesão ralado
- 2 colheres (sopa) de salsinha picada
- 1 pitada de noz-moscada
- Sal e pimenta-do-reino a gosto
Para o Molho Bechamel:
- 2 colheres (sopa) de manteiga
- 2 colheres (sopa) de farinha de trigo
- 700 ml de leite integral
- 100 g de creme de leite (meia caixinha)
- Sal a gosto
- Pimenta-do-reino branca
- Noz-moscada ralada
Para Gratinar:
- 100 g de queijo parmesão ralado
- Pequenos cubos de manteiga
Como Fazer o Canelone à Rossini
Prepare as Carnes:
- Limpe cuidadosamente os fígados, retirando nervos e eventuais partes esverdeadas.
- Seque-os com papel-toalha.
- Corte o patinho (ou coxão mole) em cubos pequenos.
- Aqueça uma frigideira grande com o azeite e metade da manteiga.
- Doure rapidamente a carne bovina até perder a coloração avermelhada.
- Retire e reserve.
Prepare os Demais Ingredientes:
- Na mesma frigideira, acrescente o restante da manteiga.
- Refogue a cebola até ficar translúcida.
- Junte o alho e refogue por 1 minuto.
- Acrescente os cogumelos e cozinhe por aproximadamente 3 minutos.
- Adicione os fígados e cozinhe apenas até perderem a cor avermelhada, mantendo-os ligeiramente rosados no centro.
- Volte a carne bovina para a frigideira.
- Acrescente o vinho Marsala (ou o vinho tinto).
- Cozinhe por alguns minutos até que o álcool evapore completamente
- Tempere com sal, pimenta e noz-moscada.
- Retire do fogo e deixe esfriar levemente.
O ponto do fígado é o maior segredo desta receita. Quando cozido além do necessário, suas fibras se contraem intensamente, expulsando água e deixando a carne seca, granulosa e com sabor mais pronunciado. Um cozimento rápido preserva sua maciez e resulta em um recheio muito mais delicado.
Prepare o Recheio:
- Passe tudo rapidamente pelo processador.
- Evite processar em excesso.
- Acrescente o parmesão.
- Misture a salsinha.
- O resultado deve ser uma pasta cremosa e levemente granulada.
Prepare o Molho Bechamel:
- Derreta a manteiga.
- Acrescente a farinha.
- Cozinhe por cerca de 2 minutos, mexendo sempre.
- Adicione leite aos poucos.
- Misture vigorosamente com um fouet.
- Quando engrossar, acrescente o creme de leite.
- Tempere com sal, pimenta branca e noz-moscada.
- Reserve.
O molho Bechamel utiliza a técnica francesa o roux, em que a farinha é previamente cozida na manteiga antes da adição do leite. Esse processo elimina ao sabor de farinha crua e proporciona um molho liso, sedoso e estável.
Monte os Canelones:
- Distribua uma porção do recheio sobre cada folha de massa.
- Enrole formando cilindros.
- Disponha em uma travessa untada com manteiga ou azeite.
- Cubra completamente com o molho Bechamel.
- Polvilhe todo o queijo parmesão ralado.
- Distribua pequenos cubos de manteiga sobre a superfície.
Leve para Assar:
- Leve ao forno preaquecido a 180°C por aproximadamente 30 minutos.
- Nos últimos 5 minutos, aumente a temperatura para 220°C ou utilize a função grill, caso disponha dela, para intensificar o gratinado.
Dicas para um Resultado Perfeito
- Não cozinhe demais os fígados.
- Utilize cogumelos frescos sempre que possível.
- O vinho Marsala confere autenticidade à receita, mas um bom vinho seco também produz um excelente resultado.
- O recheio deve permanecer úmido, nunca seco.
- Aguarde cerca de 10 minutos antes de servir. Esse descanso permite que o molho se estabilize, facilitando o corte e preservando a cremosidade do recheio.
O verdadeiro Canelone à Rossini é uma receita que representa a elegância da cozinha italiana clássica. Ao combinar carne bovina, fígado de galinha, cogumelo, vinho e um delicado molho Bechamel, o prato demonstra como ingredientes aparentemente simples podem alcançar um resultado sofisticado quando preparados com técnica e equilíbrio. É uma receita que homenageia não apenas Gioachino Rossini, mas também uma tradição gastronômica em que sabor e refinamento caminham lado a lado.
Esta receita representa um resgate histórico. Em uma época em que muitas versões comerciais se afastam da tradição em prol da facilidade, preparar o verdadeiro Canelone à Rossini é redescobrir um clássico quase esquecido, que homenageia não apenas um dos maiores compositores da Itália, mas também uma culinária que sempre valorizou a técnica, o equilíbrio e o aproveitamento inteligente de ingredientes nobres e populares. Bom apetite!
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